A biografia de Dr. Armando
publicado no dia 12/07/10 //Por Edilson Silva*
Há poucos dias tive a satisfação de participar de um acontecimento revestido de imensa simbologia política: o lançamento da biografia do ex-ministro Armando Monteiro Filho, intitulada “Foi assim”. Trabalho bonito finalizado pela editora Bagaço.
No evento fui presenteado com carinhosa dedicatória em meu exemplar e no exemplar de Heloísa Helena – a quem representei na oportunidade -, alcançadas após mais de duas agradáveis horas na fila de espera, pois havia, nas palavras do ex-ministro, uma multidão presente. Experimentei a verdade de suas palavras, numa espera que tinha de Bruno Maranhão ao governador Eduardo Campos, passando por Ney Maranhão e outras tantas personalidades.
Além das dedicatórias, fui agraciado também com o privilégio de constar entre os que escreveram depoimentos em sua biografia, fato que me deixou muitíssimo lisonjeado.
Já respeitava muito Dr. Armando pelo pouco que lhe conhecia, por seu apego à democracia e à reforma agrária. Com sua biografia em mãos, que nos permite fazer um passeio leve pelos bastidores do poder central no Brasil num de seus períodos recentes mais intrigantes e também pela política em Pernambuco no mesmo período, meu respeito converteu-se em admiração.
Todos sabem que Dr. Armando se negou a participar da conspiração que viria a vitimar o governo João Goulart, do qual foi ministro da Agricultura. O que pouca gente sabe é que os golpistas chegaram a oferecer-lhe o ministério da Justiça, recebendo deste um sonoro não. Homem firme.
Como ministro, estava responsável por uma das principais reformas de base de Jango, a reforma agrária, e chamou ninguém menos que Dom Hélder Câmara para ajudar a compor sua proposta, que na Câmara Federal tinha como relator o então deputado Plínio de Arruda Sampaio – outra biografia pedagógica -, hoje candidato à presidência da República pelo PSOL. Homem de espectro político amplo esse Dr. Armando.
Em 1962, ao ver seu então partido, o PSD, render-se ao pragmatismo e à polarização na disputa pelo governo estadual em Pernambuco entre João Cleofas e Miguel Arraes, lançou-se numa candidatura de protesto, independente. Preferiu a derrota eleitoral com vitória moral a buscar chafurdar no poder sem ela. Pagou o preço. Homem de princípios.
Considerado moderado no PMDB, com a anistia política e a chegada de Brizola do exílio, foi fundador do PDT. Logo ele, um moderado. Mas é que antes de ser moderado, Dr. Armando parece não gostar de caminhos de menor resistência. Homem desacomodado.
Em tempos de desastres ambientais, o Código Florestal que hoje buscamos preservar como resistência contra a insanidade dos ruralistas, chefiados pelo relator do novo código, deputado do PC do B paulista Aldo Rebelo, foi concebido em 1962, na gestão do então ministro da Agricultura Armando Monteiro Filho. Homem de visão.
O fato de Dr. Armando ter sido sempre um empresário, contraditoriamente – tomando-se como base a regra prevalecente na política -, torna sua biografia ainda mais interessante e admirável. Usou a condição de empresário para fazer política de forma independente. Fato raro na história. Não fez da política uma extensão de seus negócios. Também pagou um preço. Homem absolutamente republicano.
A política e o poder passaram por dentro de Dr. Armando, sem alterar-lhe a espinha dorsal. São praticamente 85 anos de vida, tempo de sobra para perder-se nos labirintos, contradições e descaminhos do pragmatismo que age quase como força de gravidade na política. Mas Dr. Armando, sempre ao lado de Dona Do Carmo, sua esposa, preferiu chegar até aqui desse jeito, e contar aos mais moços que é possível e necessário fazer política com dignidade e com ética, sem render-se ao realismo cinzento dos nossos dias. Bela biografia.
* Presidente do PSOL/PE e candidato ao governo de Pernambuco
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